[Reportagem] Entrevista com Edson Cruz, presidente da AARG

Reportagem: Lailiane Freitas 
Imagens: Felipe Bueno 

O cotidiano da rua Guaicurus é composto por um conjunto de aspectos relevantes, que vão das ruínas de seus prédios às pessoas, profissionais, comerciantes, moradores e ruas, ou seja, personagens que ajudam a construir o contexto Guaicurus. Uma das ruas mais tradicionais da cidade, reconhecida como zona do baixo meretrício de Belo Horizonte, a Guaicurus abriga também outros estabelecimentos e serviços, como explica o Presidente da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus (AARG), Edson Cruz, que defende o tombamento histórico do local, devido a sua grande importância. Veja o vídeo com a entrevista. 

[Reportagem] Onde às vezes começa a rua

Por Felipe Bueno

O vai e vem de carros e pessoas na rua Guaicurus

Encontrar um policial no posto da rua Guaicurus é algo que requer várias visitas ao local, mais precisamente 5. Próximo à sua cabine, ele está conversando com um mendigo, que devia estar alcoolizado, uma vez que, estava dançando fora da calçada, no local dos carros estacionarem. Um perigo eminente, já que, os carros param ali sem nenhuma cautela. O PM tinha um tom amigável com o homem. Não estava repreendendo-o.

A dificuldade em encontrar o policial existe pelo fato dele estar quase sempre fazendo ronda na região, segundo ele. E, mesmo com o trabalho de ficar rondando o hiper-centro, no intuito de manter a segurança do local, ele vê tudo muito tranquilamente. “Aqui é desse jeito que vocês tão vendo. O trânsito aumentou por causa do desvio do fluxo da Avenida Santos Dummond pra cá. Ali tem os hotéis. Vêm mulheres do Brasil todo trabalhar aqui”, faz o seu breve relato sobre a rua Guaicurus.

O fato de vir mulheres de todas as partes do país é algo que parece normal para ele, que fala sempre com um sorriso de prontidão e com uma brincadeira aqui, outra ali. “Vocês têm que subir nos hotéis para conhecer. Você tem cara de quem já subiu garoto”. Ele sequer cogita uma exploração das mulheres prostitutas por parte dos “cafetões”. E prossegue no seu relato. “Um crime comum que a gente tem aqui é furto. Eles agem em grupo. De repente eles fazem um bolo de gente e leva a carteira da vítima. Nem dá para perceber. Acontece tudo muito rápido.”

Outros delitos. Existem? “Há um jogo de tampinhas. Muitas pessoas caem nessa e acabam ficando sem o dinheiro. É um truque que muita gente já caiu.” Bem, o jogo, partindo do senso comum, é visto muito mais como esperteza do que um crime grave. Perguntar para os belo-horizontinos sobre como eles veem a rua Guaicurus é obter respostas sempre associando o lugar à violência, tráfico de drogas, prostituição e comércio ilegal.

Muito disso não apareceu nas histórias contatadas pelo policial, que trabalha pouco mais de 7 meses no local. Nesse período, um homem foi preso com 192 papelotes de cocaína na rua Guaicurus, pela própria Polícia Militar, durante o patrulhamento de rotina, no dia 10 de março; é o que informa a notinha – “Homem é preso com quase 200 papelotes de cocaína no centro de Belo Horizonte” – publicada pelo jornal O Tempo (10/03/2012).

O mesmo jornal ainda diz de um jovem baleado na Guaicurus e muitas outras ocorrências de crimes cometidos na rua. “Jovem é baleado na rua Guaicurus, no centro de BH”, reportagem publicada no dia 3 de fevereiro deste ano. “Casal é preso em hotel de BH com 71 papelotes de cocaína”, nota publicada no dia 1º de fevereiro. “Homem finge ser cego e é preso no centro de BH” ao tentar roubar carro”, matéria publicada no dia 9 de dezembro de 2011.

As notícias são ainda piores no período anterior aos 7 meses de atuação do policial nessa região. “Homem é encontrado morto em um hotel da rua Guaicurus”, reportagem do dia 18 de novembro 2011. “Garota de programa é encontrada morta em hotel no centro de BH”, reportagem do dia 04 de novembro de 2011. Não é nenhum caso crítico do índice de criminalidade se for pensar numa cidade com cerca de 2,5 milhões de habitantes. Mas, o número de delitos narrados pelas reportagens diz de uma parte pequena da cidade. Uma rua apenas. Ao compor todas essas narrativas jornalísticas cria-se uma imagem não só do cotidiano da rua, mas, também dos diversos aspectos do sistema policial. Ora coerente, ora não.

[Reportagem] Cine Caribe, cinema erótico na Guaicurus

Por Felipe Bueno

De domingo a domingo, das 8:30 às 21 horas

Roleta do Cine Caribe

O barulho da roleta nos remete a várias situações. Roleta do transporte coletivo? Não, não se trata dessa. É uma roleta de cinema. Não um cinema comum, feito aqueles dos shoppings e do circuito cultural. Já na fachada do prédio é possível distinguir a diferença entre este cinema dos outros, não porque os cartazes dos filmes são menores, muito menos pelo fato da fachada da casa estar deteriorada, ao passo de desabar.

O que difere é o tipo de filme exibido. Por mais que a temática da sexualidade esteja presente em qualquer filme, inclusive nas animações, as projeções da sala deste cinema se diferem pelo objetivo do produto. As exibições, assim como a criação dos filmes, tem o propósito de provocar o desejo de quem vê. O sexo pelo apelo.

Já na entrada é possível ver os cartazes dos filmes. “Rainha do anal”, um nome genérico. O movimento não é intenso. Durante 1 hora, apenas 6 pessoas compram o ingresso para ver a produção pornô. Todos eles homens. Mas, o sr. Luís Antônio Miranda da Silva, 57, o bilheteiro do Cine Caribe, conta que é comum a frequência de casais. Mulheres acompanhadas não pagam. “Mais ou menos umas 70 pessoas passam por aqui por dia”, tenta precisar.

Cartaz com os preços do Cine Caribe

Dez reais é o preço da sessão no Cine Caribe, que funciona no número 673, todos os dias da semana e feriados também, das 8:30 às 21 horas. Ele trabalha há 3 anos no cine, um dia sim, um não. De vez em quando, faz segurança do cinema Belas Artes, que integra o circuito de cinema de rua que exibem filmes de uma linguagem cinematográfica elaborada e de ideias novas.

A rua Guaicurus tem a fama de zona de meretrício, por conta das várias casas de prostituição. O comércio do sexo é algo próprio dessa região e está ali há muito tempo. O que era em décadas passadas um lugar de luxo e boemia, onde se via pessoas da burguesia em busca dos prazeres carnais, hoje se vê ruínas. Quem está à procura de sexo, não por meio apenas das prostitutas, tem o cinema como local. “O que vai acontecer lá dentro não importa”, diz Luís tentando explicar que o ato sexual praticado em acordo entre as partes é permitido no estabelecimento, e de que os clientes devem estar cientes disso.

[Reportagem] Um desvio para a Guaicurus

Por Lailiane Freitas

O hipercentro de Belo Horizonte sofre massivamente com as deficiências do trânsito e com as vias defasadas. Milhares de pessoas e carros passam diariamente na Rua Guaicurus. Esse número aumentou significantemente após o inicio das obras do BRT (Transporte Rápido por Ônibus), da Área Central, que faz parte das melhorias que estão sendo implantadas na cidade visando a Copa do Mundo de 2014. A Rua que antes servia apenas de passagem e trânsito local se tornou uma das principais vias de acesso ao centro da cidade.

Mudanças no fluxo do trânsito no centro de Belo Horizonte – Mapa: Divulgação/PBH

A Guaicurus foi o local do primeiro ciclo da industrialização de Belo Horizonte, por causa da sua localização, com o crescimento da cidade a região foi perdendo a sua importância econômica e adquirindo as características que temos hoje. A Rua, que é conhecida como a zona boêmia e do baixo meretrício da Cidade teve o seu tráfego alterado para atender as modificações do trânsito, necessárias devido à interdição às faixas de trânsito centrais da Av. Santos Dumont, nos dois sentidos.

Segundo o Analista de Transporte e Trânsito da BHTRANS, Luiz Eustáquio da Silva, o aumento do fluxo de veículos na rua chega aos 400%. O trânsito da Guaicurus ficou da seguinte forma: entre Rua da Bahia e Rua Rio de Janeiro, atualmente mão única no sentido Rodoviária/ Praça da Estação, passou a operar em mão única direcional no sentido inverso (Praça da Estação/ Rodoviária). Com a inversão da mão direcional, a Rua passa a operar em toda a sua extensão, da Rua da Bahia até a Rua Curitiba, no sentido Praça da Estação/ Rodoviária.

Ainda de acordo com a BHTRANS, cento e sessenta linhas de ônibus tiveram seu itinerário e os seus pontos alterados. Foram Criados quatro novos pontos ao longo da Rua Guaicurus, que ao todo recebem 65 linhas de ônibus e desativado o ponto entre as Ruas Espírito Santo e Rio de Janeiro.  A usuária do transporte público, Elenice Fernandes, 42, que devido às mudanças, teve o ponto da linha de ônibus que utiliza, 4802, transferido para Guaicurus comenta que está muito ruim pegar o ônibus ali. Ela acha a Rua muito perigosa e diz que nunca havia ido a Guaicurus anteriormente. Para ela o quanto antes os pontos voltarem para a Av. Santos Dumont melhor.

Com o aumento de pessoas circulando pela Rua o comércio, de modo geral, se aqueceu. Porém alguns comerciantes reclamam da proibição de estacionar no trecho entre a Rua da Bahia e Espírito Santo. Por outro lado, os aproximadamente 21 hotéis que oferecem diversão variada para os frequentadores estão animados com o aumento da circulação de possíveis clientes.

[Diário de Bordo] Cinza durante o dia e colorida à noite

Por Felipe Bueno

13/06/2012

Rua Guaicurus: Vista panorâmica da rua e Hotel Cristal em detalhe

Com posse de um tripé e uma câmera, eu fazia fotos e vídeos da rua Guaicurus, do terraço de um shopping, o qual me dava uma visão panorâmica do centro da cidade. Era noite, horário que as cores, luzes e olhares saltam num apelo agressivo no clamor pela violação e vontade de transgressão. Ali de cima era possível observar aspectos diferentes dos quais eu encontrei ao andar por toda extensão da rua durante o dia. No vai e vêm, por volta do meio-dia, pude observar vozes pedindo socorro.

Dia – 11:20 às 14:05

Uma mulher aparentando ter 25 anos e em boa forma física, ainda conservava-se limpa, apesar de ter-se sentado na calçada, sob o sol escaldante. “Compre uma balinha, por favor,” estendia a mão cheia de Halls e pedia aos transeuntes. Assim, como se tivesse sido despejada na rua, feito um objeto, é difícil pensar que ela tem uma história, e que ela teve uma vida diferente de outras pessoas que ali foram parar.

Antes, um homem, que aparentava ter 60 anos, mas que por conta do seu estado e sujeira poderia ter uns 40, também de mãos estendidas interpelava as pessoas. Não para vender algo, mas para pedir uma esmola. Apenas o gesto. Ele não disse nada, como se tivesse utilizando-se do dito popular, “os gestos valessem por mil palavras”. A poeira na cara ressalta a expressão de sofrimento e revela a ação do tempo.

O movimento incessante de automóveis, que aumentou no último mês, devido a um desvio de fluxo de outra rua, por conta de obras, torna a Guaicurus ainda mais inóspita. Barulho, pó, homens dormindo pela rua, o comércio ambulante. Tudo isso tem um tom aflitivo. De repente começo encarar a rua como um labirinto, por ser tão desesperador o cenário. Mas é preciso ir adiante e encarar os preconceitos, romper as visões e sair da zona de conforto.

Meus olhos se retraem. É constrangedor estar ali com olhares de um estrangeiro. Porém, a curiosidade não se contém. Noto que os prédios em ruínas ameaçam a desabar. É interessante constatar a porção de gente que vive e trabalha ali. Talvez a alma dessas pessoas soma-se ao espírito dos casarões, que em outro tempo teve seu momento de glamour e, que, agora estão fadados ao esquecimento e invisibilidade.

Noite – 18:00 às 20:40

Vou-me embora da rua depois de colher observações e imagens. Volto por volta das 18 horas do mesmo dia com objetivo de imergir no mundo das mulheres que se prostituem. Em todos os casarões, a cada janela e porta aberta, uma mulher goste ou não de viver do comércio do próprio corpo, espera por seu cliente. Ainda sem coragem para conferir isso, tardo a visita ao que chamam de “bordel”, “zona”, “puteiro”, “prostíbulo”, “privê”, “lupanar”, “cabaré”, “casa de prostituição”… Então, me distancio da rua. Adiei um das etapas da produção desse blog.

Como não podia voltar sem informação para casa, comecei a fazer o registro fotográfico e vídeos, numa perspectiva dos personagens e da própria rua à noite. Minha lente só não é mais indiscreta que a minha inquietação. Começo a fotografar sem parar. Do alto, estando longe das pessoas que passam na rua, não imaginei que também poderia ser observado.

Despisto. Mudo de enquadramento, agora um plano mais aberto. Isso não convenceu um homem que nos avistou e de baixo acenou. Segurando um jornal, ele fez um gesto como se quisesse saber se estávamos produzindo uma reportagem para algum jornal. De fato, estávamos. Ele entrou no shopping e veio conversar com um funcionário do estabelecimento, que esclareceu tudo. O funcionário, que não quer ser identificado em entrevistas por conhecer muitas pessoas da rua Guaicurus, trabalha naquela região há 18 anos e nos diz sobre a insegurança do homem, que é serviçal de uns dos cafetões do bordel em frente ao centro de compras. O homem já foi embora e convencido de que somos apenas estudantes, sem nenhuma pretensão. A conversa continua fluindo e descobrimos que o homem que nos livrou de um apuro é um ótimo personagem para uma reportagem.

[Diário de Bordo] Primeiras impressões

Por Lailiane Freitas

O sol não projetava sombra hora alguma, de tão intensa a luz e o calor naquele sábado, dia em que saí de casa à tarde, em busca de imersão num mundo desconhecido, a rua Guaicurus, no centro de Belo Horizonte. Muito já tinha ouvido falar sobre aquela rua. Já havia passado por ela outras vezes, mas nunca tinha permanecido lá por tanto tempo e me atentado para aquela difícil e instigante realidade. A curiosidade e o anseio por entender o cotidiano e a dinâmica da Guaicurus  me levou a insistir e prosseguir na ideia de realizar este trabalho.

A rua está cheia e movimentada. Pessoas vão e vêm numa busca incessante por algo que não consigo entender a princípio. Pedestres dividem as calçadas com pessoas que fazem daquele espaço suas casas. Usuários de drogas, pedintes e vendedores ambulantes também estão por ali. Ao prosseguir na minha caminhada me sinto como um ser estranho, invadindo o espaço dos outros. A sensação que tenho é a de que todos os olhares estão sobre mim. E, de fato, estavam.

Estou lá sozinha e assustada com tudo que vejo. Não consigo descrever ao certo quais são as sensações que sinto enquanto ando pela Rua. De repente um obreiro de uma igreja protestante me aborda para entregar uma mensagem bíblica. Isso me chama muita atenção. Como será o convívio de uma igreja conservadora com as demais atividades realizadas na Guaicurus, principalmente com a prostituição? Olho para o interior da Igreja e me assusto com a quantidade de pessoas.

O fluxo de carros é intenso, além dos vários estacionados ao longo de toda rua. As pequenas portas abertas com escadas que levam a um lugar desconhecido estão por toda parte, distribuídos nos prédios antigos e decadentes pintados com cores fortes. O entra e sai não para nestes lugares. Após tantas observações a minha curiosidade por aquele lugar é cada vez maior, assim como a vontade de entrar em todos aqueles estabelecimentos e descobrir o que tem no fim das escadas e atrás de cada janela velada. Mas já alertada anteriormente para não fazer isso, me contento por hora.