[Reportagem] Entrevista com Edson Cruz, presidente da AARG

Reportagem: Lailiane Freitas 
Imagens: Felipe Bueno 

O cotidiano da rua Guaicurus é composto por um conjunto de aspectos relevantes, que vão das ruínas de seus prédios às pessoas, profissionais, comerciantes, moradores e ruas, ou seja, personagens que ajudam a construir o contexto Guaicurus. Uma das ruas mais tradicionais da cidade, reconhecida como zona do baixo meretrício de Belo Horizonte, a Guaicurus abriga também outros estabelecimentos e serviços, como explica o Presidente da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus (AARG), Edson Cruz, que defende o tombamento histórico do local, devido a sua grande importância. Veja o vídeo com a entrevista. 

[Reportagem] Prostituição e anonimato

Por Felipe Bueno

“Não posso deixar você filmar aqui. Tudo aqui é contravenção”, diz o gerente de uma das casas de prostituição da rua Guaicurus, após tentativa de entrevista com uma prostituta. Bruna é o nome dela. Depois de muito insistir, ela topou timidamente falar sobre o seu trabalho. Porém, os equipamentos de vídeo assustaram um dos homens que gere o prostíbulo. “Não. Eu não posso deixar vocês filmarem. Também não posso acompanhar vocês na entrevista, estou trabalhando”, responde o homem mesmo com a afirmação de que a reportagem não era uma denúncia e de que ele poderia observar.

Na mesma zona – termo popular para designar os bordéis -, homens andam pelos corredores largos, de uma extremidade a outra, onde se encontra os quartos. A cada porta uma mulher diferente, com sua história diferente. Quando não estão com clientes, elas ficam se exibindo da porta, vendendo a imagem que têm. Algumas estão completamente nuas em cima da cama, numa posição que sugere o ato sexual, mas essas, por meio do semblante, parecem tristes. As mulheres na porta, essas sim parecem  que estão dispostas a fisgar um cliente.

“Poxa! Hoje eu não ganhei nada. Me dá um cigarro”, brinca uma das prostitutas com um homem e já aproveita para garantir o programa, “quero uma pistola também”. Ela estava de calcinha e seios a mostra. Enquanto isso, no quarto em frente, uma prostituta faz um movimento na língua que vai do seu lábio inferior ao superior repetitivamente. Seu nome de guerra é Luna. O ar carregado por um cheiro que mal dá para respirar.

- Quanto é o programa?

- É dez. Vem, vamos fazer.

A conversa se inicia com o mínimo de formalidade necessária, já dentro do quarto. Prostitua há 10 anos, Luna, 40, não quer ser identificada na entrevista com seu nome verdadeiro. Ela hoje vive com um homem, estão juntos há 2 anos. Segundo ela, seu cônjuge não sabe que ainda continua fazendo programa. Sim, eles se conheceram no bordel. “Vim do interior de Minas para Belo Horizonte quando tinha uns 30 anos. Não conseguia achar emprego nenhum. Parecia um cerco. Comecei a ficar angustiada”, explica Luna como e porque começou a se prostituir. “Meus pais sabem, meus irmãos também”, diz.

Quanto à família, ela se sente tranquila e amada. “Minha mãe é muito religiosa. Expliquei para ela, disse que ia continuar sendo a filha dela. Hoje ela conformou. Mas sei que gostaria de me ver fazendo outra coisa”, relata. Dentro do seu quarto e sob uma luz vermelha, os olhos e seios de Luna saltam para fora. Ela está vestida com uma lingerie preta e calçando uma bota com um salto grande. Enquanto fala, mexe o cabelo o tempo todo e olha fixamente para o zíper da calça, às vezes, subindo o olhar.

Para ela, existe uma vida dentro e fora dali. Diz nunca ter sofrido preconceito, mas para ela a prostituta e o gay são os mais explorados. “A gente passa por algumas coisas ruins. Da mesma forma que o homem explora a prostituta, tem homem aí que fica com gay e explora”. Entre os fatos engraçados, ela lembra, fazendo cara nojo e rindo, de um caso, “meu segundo cliente era um homem muito sujo. Seu pé estava todo incrustado de sujeira”.

Estudante do curso técnico de enfermagem, ela vê o ofício como uma profissão futura. “Antes tinha uma fila enorme de homens querendo ficar comigo. Hoje, não que eu não consiga mais viver disso, mas a procura diminuiu. Vai chegar um momento que eu não vou mais poder fazer programa”, argumenta. Ela também tem o sonho de construir um centro de beleza.

- Você já sonhou algum dia casar-se, ter filhos?

- Sim, claro. Toda pessoa quer casar na vida. Ninguém quer ficar sozinho. O que acontece hoje é que as pessoas não estão se amando, casam por outros motivos. Parece que se casam para se separar. – explica Luna que toda mulher tem esse sonho uma hora da sua vida. E ter filhos? Ela responde apenas sim e faz um gesto com a cabeça que reproduz a afirmação.

- Você já usou drogas?

- Não, nunca usei. Tem duas coisas que atrapalham uma vida de prostituta, é a droga e o cafetão. Tem mulher que trabalha o dia todo e que no final não lhe sobra nenhum dinheiro, pois gasta tudo na droga ou os cafetões tiram tudo. – Você já foi explorada por algum cafetão? Ela responde apenas que não.

- 10 reais?

- Sim.

- Você sabe de alguma prostituta que tope dar entrevista em vídeo? -. Luna sai de seu quarto para conversar com uma de suas colegas. “Vou te apresentar a uma menina, acho que ela topa”. Ela bate na porta que se abre imediatamente, em seguida diz, “Bruna, conversa com esse menino aqui”.

[Diário de bordo] Uma difícil missão

Por Lailiane Freitas 

28 e 29 de junho de 2012

Não posso falar, pois trabalho aqui. Não, aqui não pode filmar. Não, não pode publicar. Não, não posso te dar o meu nome. Você não deve subir lá. Não posso te receber hoje, deixa para semana que vem. Essas e outras frases fizeram parte da construção desse trabalho. Ser jornalista na Guaicurus não é nada fácil. Não que eu achasse que seria, mas as dificuldades foram além do esperado. Milhões de histórias interessantes para serem contadas.

Com equipamentos prontos pegamos um táxi e mais uma vez vamos para a Guaicurus, em busca de uma entrevista em vídeo. O taxista que nos leva, receoso de não ter entendido bem, pergunta: é aqui mesmo, Guaicurus 648? Ele, assim como outras pessoas, sempre se assustam ou desconfiam quando dizemos que estamos indo para lá.

Pronto, chegamos. Descemos um pouco desconfiados e receosos por estarmos com muitos equipamentos. Vamos em direção às escadas e logo somos parados pelo porteiro, que alerta que as Associações são no estacionamento.

- Não, ela não veio hoje, não tem ninguém lá na associação.

Essa frase cai como um balde de água fria sobre nós, e agora o que fazer? Já estava tudo preparado. Por alguns instantes ficamos parados sem saber que rumo seguir, mas como não podemos perder tempo logo decidimos ir atrás de outra pauta e voltar no dia seguinte para tentar fazer as entrevistas.

Exaltado com tudo que havia visto, meu companheiro volta e logo fala: vamos, iremos gravar com uma prostituta. Novamente o entusiasmo toma conta de nós, acreditamos que finalmente iremos conseguir os depoimentos que tanto queríamos. Mas logo na entrada do hotel o porteiro já avisa: lá dentro não pode gravar não. Sem perder as esperanças vamos ao encontro do “gerente” do hotel, que é enfático ao dizer:

­- Aqui dentro não pode gravar, tudo aqui é contravenção.

Tentamos justificar dizendo que pagaremos o programa e que as gravações podem ser acompanhadas por ele, mas ele é irredutível. Educados que somos, agradecemos a todos e vamos embora, já pensando no que faríamos no dia seguinte.

Meio dia, o sol brilha e ajuda a iluminar as nossas ideias. Estamos no mesmo lugar do dia anterior, desta vez já prontos para escutar outra negativa, mas não é o que acontece, conseguimos confirmar a entrevista para mais tarde. Porém o receio e a vontade de fazer o melhor possível nos direciona para a Praça Sete, para gravar uma segunda pauta.

E agora, precisamos gravar as cabeças na Guaicurus? Não podemos montar os equipamentos no meio da rua, sabemos como isso seria arriscado. Então, novamente vamos para o alto de um shopping, que durante a realização de todo trabalho foi como uma base de apoio.

Assim foi a nossa imersão na Guaicurus, os sentimentos mais diversos fizeram parte da nossa rotina. Medo, ansiedade e uma vontade imensa de conhecer as histórias da rua estiveram sempre presentes. Em muitos momentos uma indagação foi feita: por que escolhemos esse tema? Por quê? Até agora as respostas são vagas, mas a satisfação por ter conseguido fazer é imensa.

 

[Diário de Bordo] Fontes da informalidade

 Por Lailiane Freitas 

21 de junho 2012, 18:20 às19:30

A busca de fontes para realizar as pautas não cessa. Tudo na Guaicurus é informal. As pessoas conversam com você, mas não querem ver o seu nome e sua imagem estampada em uma reportagem. Tentei entrevistar comerciantes, policiais, fiéis de igrejas protestantes, pessoas nos pontos de ônibus. Há sempre algum empecilho, e um pedido – “volte depois”- seguido de uma justificativa – “estou um pouco ocupado agora”-.

Fim da tarde. Mais uma vez parto do meu trabalho em direção a rua Guaicurus. O que antes parecia distante e obscuro, está cada vez mais próximo e real. A rotina da rua não mais me assusta. Embora, andar pelas calçadas seja complicado, devido ao grande número de moradores de rua que usam maconha e crack.

Talvez um oficial da PM possa falar sobre o problema de drogas na rua, penso. Abordo um policial, que não se incomoda em falar. Ele não é a pessoa mais indicada para uma entrevista, já que raramente trabalha no local. “Vocês podem conversar com os militares que ficam sempre aqui. Eles estão na ronda agora”, nos informa o policial.

Um homem, com aparência de morador de rua, dança animado com um copo na mão, em frente a um bar. Foi aí que percebi a presença de outros policiais, que momentos depois descobri ser quem procurava. Eu e Felipe, meu parceiro nesse blog, nos aproximamos para conversar com o policial. Ele nos conta brevemente como é fazer o policiamento da rua. Explica quais são os principais crimes cometidos na região e como os bandidos agem.

[Reportagem] Onde às vezes começa a rua

Por Felipe Bueno

O vai e vem de carros e pessoas na rua Guaicurus

Encontrar um policial no posto da rua Guaicurus é algo que requer várias visitas ao local, mais precisamente 5. Próximo à sua cabine, ele está conversando com um mendigo, que devia estar alcoolizado, uma vez que, estava dançando fora da calçada, no local dos carros estacionarem. Um perigo eminente, já que, os carros param ali sem nenhuma cautela. O PM tinha um tom amigável com o homem. Não estava repreendendo-o.

A dificuldade em encontrar o policial existe pelo fato dele estar quase sempre fazendo ronda na região, segundo ele. E, mesmo com o trabalho de ficar rondando o hiper-centro, no intuito de manter a segurança do local, ele vê tudo muito tranquilamente. “Aqui é desse jeito que vocês tão vendo. O trânsito aumentou por causa do desvio do fluxo da Avenida Santos Dummond pra cá. Ali tem os hotéis. Vêm mulheres do Brasil todo trabalhar aqui”, faz o seu breve relato sobre a rua Guaicurus.

O fato de vir mulheres de todas as partes do país é algo que parece normal para ele, que fala sempre com um sorriso de prontidão e com uma brincadeira aqui, outra ali. “Vocês têm que subir nos hotéis para conhecer. Você tem cara de quem já subiu garoto”. Ele sequer cogita uma exploração das mulheres prostitutas por parte dos “cafetões”. E prossegue no seu relato. “Um crime comum que a gente tem aqui é furto. Eles agem em grupo. De repente eles fazem um bolo de gente e leva a carteira da vítima. Nem dá para perceber. Acontece tudo muito rápido.”

Outros delitos. Existem? “Há um jogo de tampinhas. Muitas pessoas caem nessa e acabam ficando sem o dinheiro. É um truque que muita gente já caiu.” Bem, o jogo, partindo do senso comum, é visto muito mais como esperteza do que um crime grave. Perguntar para os belo-horizontinos sobre como eles veem a rua Guaicurus é obter respostas sempre associando o lugar à violência, tráfico de drogas, prostituição e comércio ilegal.

Muito disso não apareceu nas histórias contatadas pelo policial, que trabalha pouco mais de 7 meses no local. Nesse período, um homem foi preso com 192 papelotes de cocaína na rua Guaicurus, pela própria Polícia Militar, durante o patrulhamento de rotina, no dia 10 de março; é o que informa a notinha – “Homem é preso com quase 200 papelotes de cocaína no centro de Belo Horizonte” – publicada pelo jornal O Tempo (10/03/2012).

O mesmo jornal ainda diz de um jovem baleado na Guaicurus e muitas outras ocorrências de crimes cometidos na rua. “Jovem é baleado na rua Guaicurus, no centro de BH”, reportagem publicada no dia 3 de fevereiro deste ano. “Casal é preso em hotel de BH com 71 papelotes de cocaína”, nota publicada no dia 1º de fevereiro. “Homem finge ser cego e é preso no centro de BH” ao tentar roubar carro”, matéria publicada no dia 9 de dezembro de 2011.

As notícias são ainda piores no período anterior aos 7 meses de atuação do policial nessa região. “Homem é encontrado morto em um hotel da rua Guaicurus”, reportagem do dia 18 de novembro 2011. “Garota de programa é encontrada morta em hotel no centro de BH”, reportagem do dia 04 de novembro de 2011. Não é nenhum caso crítico do índice de criminalidade se for pensar numa cidade com cerca de 2,5 milhões de habitantes. Mas, o número de delitos narrados pelas reportagens diz de uma parte pequena da cidade. Uma rua apenas. Ao compor todas essas narrativas jornalísticas cria-se uma imagem não só do cotidiano da rua, mas, também dos diversos aspectos do sistema policial. Ora coerente, ora não.

[Reportagem] Cine Caribe, cinema erótico na Guaicurus

Por Felipe Bueno

De domingo a domingo, das 8:30 às 21 horas

Roleta do Cine Caribe

O barulho da roleta nos remete a várias situações. Roleta do transporte coletivo? Não, não se trata dessa. É uma roleta de cinema. Não um cinema comum, feito aqueles dos shoppings e do circuito cultural. Já na fachada do prédio é possível distinguir a diferença entre este cinema dos outros, não porque os cartazes dos filmes são menores, muito menos pelo fato da fachada da casa estar deteriorada, ao passo de desabar.

O que difere é o tipo de filme exibido. Por mais que a temática da sexualidade esteja presente em qualquer filme, inclusive nas animações, as projeções da sala deste cinema se diferem pelo objetivo do produto. As exibições, assim como a criação dos filmes, tem o propósito de provocar o desejo de quem vê. O sexo pelo apelo.

Já na entrada é possível ver os cartazes dos filmes. “Rainha do anal”, um nome genérico. O movimento não é intenso. Durante 1 hora, apenas 6 pessoas compram o ingresso para ver a produção pornô. Todos eles homens. Mas, o sr. Luís Antônio Miranda da Silva, 57, o bilheteiro do Cine Caribe, conta que é comum a frequência de casais. Mulheres acompanhadas não pagam. “Mais ou menos umas 70 pessoas passam por aqui por dia”, tenta precisar.

Cartaz com os preços do Cine Caribe

Dez reais é o preço da sessão no Cine Caribe, que funciona no número 673, todos os dias da semana e feriados também, das 8:30 às 21 horas. Ele trabalha há 3 anos no cine, um dia sim, um não. De vez em quando, faz segurança do cinema Belas Artes, que integra o circuito de cinema de rua que exibem filmes de uma linguagem cinematográfica elaborada e de ideias novas.

A rua Guaicurus tem a fama de zona de meretrício, por conta das várias casas de prostituição. O comércio do sexo é algo próprio dessa região e está ali há muito tempo. O que era em décadas passadas um lugar de luxo e boemia, onde se via pessoas da burguesia em busca dos prazeres carnais, hoje se vê ruínas. Quem está à procura de sexo, não por meio apenas das prostitutas, tem o cinema como local. “O que vai acontecer lá dentro não importa”, diz Luís tentando explicar que o ato sexual praticado em acordo entre as partes é permitido no estabelecimento, e de que os clientes devem estar cientes disso.